O MIRONE
O mirone é uma espécie de pessoa que se dá muito em Portugal. Não se pode dizer que seja um exemplar muito desenvolvido intelectualmente. Está mesmo muito perto do cromagnon. Tecnicamente é um Portuga com cérebro mais pequeno.
Desde que os tapumes das obras deixaram de ter o buraco especial para o mirone espreitar, este energúmeno concentra-se principalmente junto a desastres. Os desastres preferidos são os das auto-estradas, até porque são mais aparatosos.
Na auto-estrada o mirone desenvolve todas as suas potencialidades: abranda até provocar outros acidentes, estaciona para dar palpites sobre curativos, serviço nacional de saúde e o tempo e começa logo a provocar um engarrafamento, ao juntar outros colegas mirones.
O bom mirone não pára só quando o acidente é na sua faixa da auto-estrada. Não, isso é básico. O bom mirone é o que provoca engarrafamentos de quilómetros na outra faixa de rodagem.
Já vi mirones em enterros. Tristes por mortos que não conhecem e com compaixão por viúvos e viúvas desconhecidos, só para verem a cara do cadáver.
O mirone está presente em todas as classes sociais, porque o portuga, quando dá para ajavardar, é democrata. É mesmo das poucas ocasiões em que é democrata, a javardice.
O mirone quando tem muitos mirones amigos e influentes chega finalmente à política e é aí que ele mostra todas as suas potencialidades. Acredita com naturalidade cargos para os quais não tem o mínimo de preparação, e portanto dá em ministro, ministra ou secretário de Estado num instante. E como normalmente se rodeia de gente pouco séria, pouco inteligente e com poucos escrúpulos, não repara que o resto da malta está ver que é uma nulidade. Aliás o mirone nunca vê o fundamental, vê só o sitio para onde está a olhar no momento, como os cavalos com aquelas palas...
O mirone é primo do burgesso que tem um carro prateado de 10 mil contos mas não tem kit de mão livres para o telemóvel porque é caro, é sobrinho da senhora de jipe que vai na faixa da esquerda a 60 a chatear toda a gente, é genro do fulano de bigode da carrinha que não para nas passadeiras de peões, é neto do senhor de boné que não tem um farol e o outro está a apontar para os nossos olhos, é compadre do barrigudo que invade propriedades de outros aos tiros a tudo o que se mexe, e do autarca que tem um tacho na câmara há 20 anos e já lá enfiou toda a família. É cunhado dos polícias que se passeiam de carro, sempre em grupos de 3, e nunca param onde é preciso, e é igualzinho ao irmão, que fala muito mas não faz nada. E foi o mirone que ficou muito contente ao inventar aquela frase: "Em terra de cegos, quem tem um olho é rei"... Que país!